Quando a diarreia “frequente” vira um sinal de alerta?
Diarreia deixa de ser um incômodo passageiro quando persiste ou recorre por ≥4 semanas, quando acorda à noite, vem com sangue/muco, perda de peso, febre, anemia, desidratação ou dor abdominal contínua. Em pessoas ≥45 anos ou com história familiar de pólipos/câncer colorretal, mudanças recentes do hábito intestinal merecem investigação prioritária. Nesses cenários, o intestino grosso (cólon e reto) costuma ser parte importante da avaliação.
Quais doenças do intestino grosso podem causar diarreia frequente?
Doenças inflamatórias intestinais (DII): retocolite ulcerativa e doença de Crohn
Costumam cursar com diarreia recorrente, muitas vezes com sangue e muco, urgência evacuatória, dor abdominal e fadiga. Exigem endoscopia com biópsia para confirmar e definir extensão, além de tratamento anti-inflamatório específico.
Proctite (inflamação do reto)
Pode ser infecciosa (incluindo ISTs), inflamatória (DII) ou secundária a radioterapia. Os sintomas típicos são urgência, tenesmo, muco/sangue e dor retal. O manejo depende do agente e da extensão.
Colites infecciosas
Bactérias, vírus e parasitas podem produzir diarreia com muco, dor e febre. Após uso de antibiótico, pense em C. difficile (colite associada a antibióticos), que varia de quadros leves a graves.
Colite microscópica
Causa diarreia aquosa crônica, sem sangue, mais comum em mulheres ≥50 anos e associada ao uso de certos medicamentos. O diagnóstico é histológico (biópsias na colonoscopia), porque a mucosa pode parecer normal.
Diarreia por ácidos biliares (bile acid diarrhea)
Excesso de ácidos biliares no cólon gera urgência, evacuações noturnas e fezes aquosas. É subdiagnosticada e pode estar por trás de casos rotulados como SII com diarreia (SII-D); há testes e tratamento específicos.
E as causas “fora do cólon” que imitam problemas do intestino grosso?
- Síndrome do intestino irritável (SII-D): diarreia crônica sem inflamação; costuma melhorar após evacuação e alternar com períodos de bem-estar.
- Intolerâncias alimentares: lactose e FODMAPs podem provocar gases, distensão, dor e diarreia após certos alimentos.
- Doenças de absorção/enzimáticas: menos comuns, mas entram no diagnóstico diferencial (ex.: pós-cirurgias intestinais, pancreatopatias).
- Hipertireoidismo, uso de laxantes, álcool e cafeína em excesso também podem contribuir.
Sinais que exigem ação imediata
- Sangramento volumoso, fezes pretas, tontura/desmaio.
- Diarreia febril que dura >48–72h, com desidratação (boca seca, urina escura, fraqueza).
- Dor abdominal intensa e progressiva, vômitos persistentes ou incapacidade de eliminar gases/fezes.
- Perda de peso/anemia ou alteração do hábito em ≥45 anos.
Como o proctologista entra no cuidado?
- Proctologista (coloproctologia): cuida do ânus ao cólon, diferencia doenças anorretais e colites, indica anuscopia/retossigmoidoscopia/colonoscopia e coordena o tratamento em DII e colites.
Que exames costumam ser pedidos?
- Exames de fezes: pesquisa de leucócitos/sangue oculto, cultura, parasitas e toxina de C. difficile quando houver suspeita.
- Colonoscopia (ou retossigmoidoscopia): indicada com sinais de alarme, sangue/muco recorrentes, suspeita de DII/microscópica, ou mudança recente do hábito intestinal. Permite biópsias.
- Exames de sangue: hemograma, PCR, ferritina, função tireoidiana; eletrólitos em quadros mais intensos.
- Testes específicos: SeHCAT/7αC4 fecal/serológico (diarreia por ácidos biliares, quando disponível), teste de intolerância à lactose (ou dieta de exclusão controlada), calprotectina fecal (diferenciar inflamatório x funcional).
- Imagem (USG/TC/RM): quando há dor, febre ou suspeita de complicações.
Tabela prática — “O que minha diarreia pode indicar?”
| Quadro clínico | Fezes | Acompanhantes | Suspeitas principais | Caminho inicial |
| Diarreia aquosa sem sangue, ≥4 semanas | Líquidas | Urgência, evacuação noturna | Colite microscópica, bile acid diarrhea, SII-D | Fezes + colonoscopia c/ biópsia; testar BAD conforme acesso |
| Diarreia com muco e sangue | Pastosas a líquidas | Dor, urgência, tenesmo | DII (retocolite/Crohn), proctite | Colonoscopia/retossigmoidoscopia + biópsias |
| Diarreia após antibiótico | Aquosa | Febre, dor, desidratação | C. difficile | Teste toxina/PCR; terapia específica |
| Diarreia pós-alimentos lácteos/FODMAPs | Variável | Gases, distensão | Intolerância à lactose/FODMAPs | Dieta teste orientada; reintrodução guiada; testes específicos |
| Diarreia que melhora após evacuar, sem sinais de inflamação | Variável | Cólica que alivia ao evacuar | SII-D | Calprotectina/triagem negativa; manejo de SII |
Como manejar enquanto aguarda a consulta (sem mascarar sinais importantes)
- Hidratação e eletrólitos: água, soluções de reidratação oral; evitar bebidas alcoólicas/energéticos.
- Dieta temporária leve em fases agudas (arroz, caldos, banana, carnes magras), voltando gradualmente ao padrão habitual.
- Evite anti-inflamatórios e antidiarreicos sem orientação se houver sangue/febre/dor intensa.
- Diário alimentar e de sintomas ajuda a correlacionar gatilhos (laticínios, gorduras, adoçantes poliol).
- Não prolongue pomadas com corticoide para “coceira/ardor” — podem agravar pele anal e confundir o quadro.
Intolerâncias (lactose e FODMAPs): como testar sem cair em dietas restritivas
- Lactose: faça um teste de exclusão curta (1–2 semanas) com orientação; se melhorar, reintroduza aos poucos para conhecer a tolerância pessoal. Há testes respiratórios quando disponíveis.
- FODMAPs: a fase de eliminação é breve (4–6 semanas), seguida de reintrodução estruturada para identificar grupos gatilho; o objetivo não é cortar tudo para sempre.
- Atenção a fibras e microbiota: não “zerar” fibras; ajuste quantidade e tipo (muitas pessoas toleram melhor fibras solúveis, como psyllium).
Diarreia por ácidos biliares: por que quase ninguém fala, mas muita gente tem
Quando ácidos biliares chegam em excesso ao cólon, provocam secreção de água e urgência. Pode ocorrer após cirurgia de vesícula, em doenças do íleo ou sem causa aparente. Existem testes diagnósticos (nem sempre disponíveis) e tratamento com sequestrantes de ácidos biliares e ajuste de gordura na dieta — com bom controle dos sintomas em muitos casos.
“É IBS ou IBD?” — diferenças que mudam a sua rota
- IBS/SII (funcional): não há inflamação visível; costuma alternar fases, alivia após evacuar e não causa sangue de rotina.
- IBD/DII (inflamatória): há inflamação e lesões; pode dar sangue/muco, febre, perda de peso e elevação de marcadores.
Entender a diferença evita atrasos de diagnóstico e tratamentos inadequados.
Quando marcar proctologia? E quando começar pelo gastro?
- Proctologia (coloproctologia): sangue/muco, dor retal, urgência, suspeita de DII, colite microscópica ou necessidade de exame endoscópico.
- Gastroenterologia: suspeita de intolerâncias, SII, doenças do intestino delgado, má absorção e manejo nutricional.
Se houver sinais de alarme, comece pela avaliação mais rápida disponível — o importante é não adiar.

FAQ
Diarreia frequente sempre é DII?
Não. DII é uma das possibilidades. SII, intolerâncias, colites microscópicas, C. difficile e diarreia por ácidos biliares também entram no diagnóstico diferencial.
Quanto tempo define “diarreia crônica”?
Quando dura ≥4 semanas ou recorre repetidamente por meses.
Diarreia com sangue é sempre grave?
Nem sempre, mas exige avaliação. Sangue misturado às fezes, febre e perda de peso são sinais de alarme.
Posso tomar loperamida por conta própria?
Evite se houver sangue, febre, dor intensa ou suspeita de infecção. Use apenas com orientação.
O que é calprotectina fecal?
Um marcador de inflamação nas fezes que ajuda a diferenciar DII de quadros funcionais como SII.
Se eu parar laticínios, a diarreia melhora?
Pode, se a causa for lactose. Mas não restrinja para sempre sem orientação — reintrodução guiada é parte do processo.
Preciso de colonoscopia sempre?
Não. É indicada por critérios clínicos (alarmes, idade, falha terapêutica, suspeita de DII/colite microscópica).
Diarreia noturna preocupa?
Sim. Quando acorda você à noite, sugere processo orgânico e merece investigação.
Após antibiótico, comecei com diarreia forte.
Pode ser C. difficile. Procure avaliação para testagem e tratamento.
Quem trata DII?
Proctologistas e gastroenterologistas em conjunto. O plano inclui terapias anti-inflamatórias e monitorização.
O que você leva desta leitura
Diarreia frequente não é sinônimo de sensibilidade passageira. Pode refletir inflamação no cólon/ reto, colites específicas, microscópica, C. difficile, intolerâncias ou SII. Não ignore sinais de alarme. A avaliação com coloproctologia e/ou gastroenterologia direciona exames corretos (fezes e endoscopia), define a causa e acelera um tratamento efetivo, reduzindo o impacto no seu trabalho, alimentação e vida social.

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Sou Dra. Clarisse Casali, Proctologista do Rio de Janeiro (Sociedade Brasileira de Proctologia), Especialista em Saúde do Intestino. Residência médica em coloproctologia HFCF/Min.Saúde. Especialista em Saúde do Ânus. Pós-graduação pelo Hospital Albert Einstein – SP. Especialista no tratamento de Hemorroidas, Especialista em colposcopia anal – American Society of Cervical Patology⚕️.
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Fontes
- AGA — Diretrizes para avaliação da diarreia crônica em adultos (inclui sinais de alarme e abordagem laboratorial). American Gastroenterological Association+1
- Mayo Clinic — Retocolite ulcerativa e doença de Crohn: sintomas e quando procurar ajuda. Mayo Clinic+1
- CDC — C. difficile: diarreia após antibióticos, quando testar e sinais de gravidade. CDC
- NHS — Inflammatory Bowel Disease; sinais de alarme em diarreia; disenteria (diarreia com sangue). nhs.uk+2NHS Inform+2
- Cleveland Clinic / InformedHealth (NIH) — Muco, SII e intolerância à lactose: sintomas e manejo. nhs.uk+1
- Microscopic Colitis — Revisões e posicionamentos recentes: diarreia aquosa crônica sem sangue; diagnóstico por biópsia. PMC+1
- Bile Acid Diarrhoea — Revisões e materiais de orientação para pacientes: sinais, testes e tratamento. PMC+1
